Ô viúva boa!

Guaçuí na década de 50. Repare nas duas avenidas.

A história de hoje se passa no interior do Espírito Santo. Mais especificamente em Guaçuí, sul do Estado, na década de 60.  À época, só havia duas avenidas na cidade: a mão e a contra mão. Onde se concentrava todo o comércio da região.

E numa dessas vias ficava a Farmácia Nossa Senhora da Penha, propriedade de Seu Geraldo. Do outro lado da rua, havia uma banca de frutas, comandada por Antônio, que além de comerciante, era cego. “A esposa dele colocava as frutas sempre na mesma posição, para que ele soubesse onde estava cada uma delas”. Contou o farmacêutico

Com Antônio, o dono da farmácia tinha uma relação muito especial. “Eu judiava muito dele, coitado”. Lembrou Geraldo.

“Quando não tinha o que fazer na farmácia, eu ia lá e trocava as frutas de posição. Uma vez, ele foi levar laranjas para minha esposa, que estava na farmácia. E quando ela abriu a sacola era inhame, que eu tinha trocado”. Recordou, às gargalhadas.

Brincadeiras de mau gosto com cegos pode não parecer à coisa mais divertida do mundo. Mas vai dizer isso para Seu Geraldo.

“Eu pegava uma seringa grande, enchia de água e ficava jogando nele, lá do outro lado da rua. Ele achava que estava chovendo, recolhia tudo e ia embora. Quando chegava em casa, a mulher dele brigava com ele e mandava-o voltar. Antônio argumentava: – está chovendo. Mas ela não perdoava: – chovendo? Com um sol desses? Vai trabalhar seu vagabundo!”.  

A Farmácia Nossa Senhora da Penha tinha uma ótima cliente. Tratava-se de Dona Mariquinha. Uma viúva, que Seu Geraldo garante que era uma dona muito bonita e elegante, com todo respeito, é claro. Além de frequentar seu estabelecimento, Mariquinha passava sempre em frente a sua farmácia, quando queria ir à vendinha. Até porque, só havia duas avenidas na cidade.

E, em um desses passeios, Geraldo teve a ideia de usar Antonio para mais uma de suas brincadeiras. “Quando ela passar, vou perguntar: ‘Antônio, tem ovo? ’ E você responde assim: ‘Ovo e uva boa! ’ (ô viúva boa!)”. O cego não entendeu, mas topou brincar. E assim se sucedeu durante vários dias. Ela passava e os dois caçoavam. Geraldo de um lado: – Tem ovo? E Antônio de outro: – Ovo e uva boa!

Eis que um dia, ela contou para seu filho, que estudava fora, o constrangimento que era passar em frente à farmácia. Já que um cego sempre dizia aos berros: “ô viúva boa”. Foram os dois à vendinha, quando ao sinal de Geraldo, Antonio gritou sem pestanejar: “Ovo e uva boa”.

O filho não gostou da brincadeira e foi tirar satisfação com o cego. “Que história é essa rapaz?”. E Antonio entregou: “é o Geraldinho que me manda falar isso”.

“Ele foi à farmácia, pagou o que ela devia e ela nunca mais voltou”. Lamentou Geraldo, que perdeu a cliente, mas não perdeu a piada.

Seu Geraldo é avô do blogueiro que vos escreve. E sente muita saudades de seu velho amigo. Um pouquinho de arrependimento também depois de tanta judiação. Mas se diverte muito ao contar as histórias da dupla.

Por Sérgio Rangel

3 Respostas to “Ô viúva boa!”

  1. vovodelicia Says:

    Adorei essa história! Coitado do ceguinho… hahaha..

    Bjss, Luiza

  2. Sérgio Says:

    Muito bom.
    Sabe se Vovô Geraldo já leu?
    abrça,do Pai

  3. Letícia Says:

    Que maldade com o cego..😦

    mas é engraçado mesmo.. heheheh
    🙂

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: