Dona Dedê – Uma personagem histórica

Enfermeira Pin Up, estilo muito em alta nos anos 40.

Já que a imaginação nos permite criar, recriei a Dona Dedê!

O post de hoje passou na frente do primeiro que viria falando de um Vovô Delícia, porque, como bons jornalistas, seguimos aquilo que é novo, atual. E o atual dos últimos dias é a chuva do Rio, que agora está virando chuva de Vitória, previsão confirmada pelo temporal de ontem! Não tão atuais são os engarrafamentos e transtornos que acontecem quando chove, mas, por causa desses contratempos, ganhamos a história que segue.

Ficar vinte minutos no ponto de ônibus com o céu prestes a desabar não é do gosto de ninguém! Na noite desta última terça, estava eu no Centro da Cidade, com frio e sem guarda-chuva, querendo mesmo chegar em casa quando uma senhora puxou papo comigo: “Vai chover, né?!”.

Eu poderia ter respondido um “Aham” educado e ficado por ali… normalmente, isso já não seria do meu estilo, mas, lembrando do blog, e olhando para a figura que estava do meu lado, sabia que uma conversa muito interessante começava ali. Apresento a vocês Adeline Loue, mais conhecida como Dona Dedê.

Aos 91 anos, Dona Dedê é uma senhorinha como manda o protocolo: cabelo branquinho, óculos, uma roupinha estampada com meia calça e sapato combinando. (Faço uma pausa para pedir milhões de desculpas pela falta de foto, sei que hoje em dia todo celular tem uma câmera, mas é lógico que em dia de dilúvio eu ficaria sem bateria!)

Nascida na França, Dona Dedê veio morar no Brasil logo após ser enfermeira chefe de um ambulatório durante a Segunda Guerra Mundial. Acho que nunca tinha conhecido alguém que tivesse participado de um fato histórico tão ativamente! Te dá a certeza – não que precise – que aconteceu! Enquanto pensava nisso, rapidamente eu ouvi: “Não precisa falar ‘que pena’ ou fazer muitas perguntas sobre a guerra, tenho cara de alguém traumatizada?”

Meio chocante, não é mesmo?! Mas ela falou isso com a doçura que uma senhorinha bem geniosa poderia falar. E continuou: “A guerra foi marcante sim na minha vida, mas é página virada. Acho que as pessoas que sofrem traumas de guerra é porque se apegam de mais ao passado e nós temos que viver o presente e o futuro, ou você acha que eu cheguei nessa idade como?!”

Chocante de novo! Eu bem que gostaria de saber mais sobre a Segunda Guerra…

 “Se um blog é para contar histórias, escreve que com vinte e quatro anos eu vim pro Brasil com uma irmã e um tio. Meu pai era muito moderno disse que aqui teríamos boas oportunidades! Morei em Porto Alegre quase cinqüenta anos, nunca casei (mas namorei bastante, eu era muito bonita!), não tenho filhos, nem bichinhos de estimação, que eu aposto que você ia perguntar. Mas eu viajo, danço e faço natação.”

Imagino vocês imaginando essa figura…

Entramos no ônibus, e o papo continuou, até porque aquela situação sardinha em lata me fez ficar lá na frente, mesmo se eu não quisesse! Descobri que em Porto Alegre ela fez duas melhores amigas, Luzia e Maria José, responsáveis inclusive pelo apelido “Dedê”, que é mais fácil de falar. As três ficaram tão amigas que moram juntas.

“E como vocês vieram parar em Vitória?” – questionei antes de passar a roleta, e descobri que “a Luzia tinha uma irmã que havia sido separada dela na infância e depois de uma busca achamos que elas estivesse aqui. Descobrimos que ela foi a primeira de nós a conhecer o outro mundo, e descobrimos também que já não tínhamos mais idade pra mudar de volta pra Porto Alegre, iríamos desvendar Vitória”.

Nos despedimos e eu passei o endereço do blog pra ela.

Continuei espremida, agora lá no fundo, pensando em tudo que tinha ouvido: conheci uma francesa; que viveu a Segunda Guerra; veio para o Brasil com a cara, a coragem e as perspectivas que se podia ter há uns setenta anos; independente e com muita opinião – talvez até de mais; com respostas pra tudo… e tudo por causa da chuva! Graças à espera pelo ônibus e o engarrafamento quilométrico que me deu tempo de ouvir toda a história…

Fica assim a reflexão (sem clichê nenhum, nada que se pareça com um blog de autoajuda): isso serve para que a gente preste mais atenção àquela pessoa que está do nosso lado, com chuva ou com sol… o mundo é tão grande, com tantas pessoas diferentes, que não imaginamos as mais incríveis histórias que podemos descobrir!

***

PS: Dia 08 de abril = Aniversário da minha Vó Zely, a vó da Hora do Tarzan! Beijo pra ela ;*

Por Ana Elisa Bassi

11 Respostas to “Dona Dedê – Uma personagem histórica”

  1. Lu Says:

    Que legal!
    As pessoas guardam histórias surpreendentes mesmo!

    Gostei, foi uma boa leitura de fim de noite! =D

    Beijo

  2. Isabela Says:

    Eu aqui no meio de contas e cáuculos, mas é lógico que ia parar pra ler seu post!

    Adorei,
    beijinhos =]

  3. Morando Fora de Casa Says:

    Que lindo post Aninha. Demais a sua cara! E logo que comecei a ler pensei, gente, passei 2 horas pra chegar em casa ontem e não troquei uma palavra com ninguém. Preciso mesmo mudar meus hábitos.

  4. Morando Fora de Casa Says:

    Que lindo post Aninha. Demais a sua cara! E logo que comecei a ler pensei, gente, passei 2 horas pra chegar em casa ontem e não troquei uma palavra com ninguém. Preciso mesmo mudar meus hábitos.

    Marcelle Desteffani

  5. vovodelicia Says:

    Esse blog cada dia nos ensina mais!

    impressionante! história maravilhosa!
    dizem que jornalista é igual goleiro. Tem que ser bom, mas precisa ter sorte!

    beijão aninha e parabéns!

  6. Bruno Roldi Says:

    Acho que todo mundo deveria separar um tempo só para ouvir histórias daqueles mais experientes que a gente. É um aprendizado e tanto!

    Muito boa a história!

    =*

  7. Gilson Gomes Says:

    Ana,

    como pude perder o hábito de ler seus textos, suas histórias.
    Fico tão feliz em ver como está cada vez mais habilidosa.

  8. Flávio Coradini Says:

    Se para cada chuva dessa você tiver uma história assim, peço desculpas a todos que ficam horas no engarrafamento, que chova bastante!!! =D

    Excelente post aninha!!

    bju

  9. Letícia Says:

    Ana!
    Amei. Que história! Tomara que vc tenha sempre sorte, faça chuva ou faça sol, de conseguir mais experiências para trazer para todos aqui!
    🙂

  10. Letícia Says:

    e a recriação da Dona Dedê!!!
    Muito boa!!!

  11. Jane Says:

    Ana,
    Lele me mostrou este texto, por ter achado muito legal, sem me dizer que era seu. Sem paciência comecei a ler, pois estava de saída, mas logo ao começar, gostei muito, pela leveza, pelo conteúdo, mas principalmente, por ter mostrado, logo de início, compaixão e carinho com os mais velhos.
    De fato, realmente muito bom. Parabéns!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: