A graça de um mestre

Mestre
“Para entender a alma do brasileiro é preciso surpreendê-lo no instante de um gol”

Há pessoas que dizem que a graça da vida está no fato de que um dia, ela acaba. Entretanto, há aqueles que enchem nossa vida de graça e se esses fossem eternos, não haveria tédio algum em tê-los para sempre.

Para muitos, Armando Nogueira seria um desses imortais. E hoje, o “Vovó Delícia” vai fugir de sua proposta inicial, descrita no “post” anterior, para homenagear o homem, que em 83 anos de vida, cobriu, nada mais que, 15 copas ‘in loco’, criou o Jornal Nacional, escreveu dez livros e teve duas grandes paixões: O esporte e a vida. Ao partir, o “mestre”, como era carinhosamente chamado, fez órfão o jornalismo brasileiro.

A história de Armando Nogueira começa onde o Brasil quase termina, em Xapuri, cidade do Acre, no dia 14 de janeiro de 1927. Aos 17 anos, foi para o Rio de Janeiro. Mas, o jornalismo só entraria em sua vida em 1950, quando fez parte da equipe de esportes do Jornal Carioca. Lá, Armando trabalhou com os melhores jornalistas esportivos da época. Nomes como Prudente de Morais Neto, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Pompeu de Souza. Essa foi sua a escola de jornalismo e lá permaneceu por treze anos.

O ponto alto de sua carreira aconteceu 16 anos depois. Armando, já um dos pioneiros da TV brasileira, escrevia textos, na antiga TV-Rio, para os locutores Cid Moreira e Herón Domingues. Foi quando, a convite de Walter Clark, ingressou na Rede Globo, onde implantou o telejornalismo na empresa. Em 1º de setembro de 1969, entrava no ar a primeira edição do Jornal Nacional, o primeiro programa de TV exibido em rede no país. Obra prima do “mestre”.

Armando Nogueira permaneceu na Globo até 1990. Sua saída se deu, após um fatídico episódio entre ele o presidente da emissora, Roberto Marinho, tendo as eleições de 89 como pano de fundo. Há 22 anos como chefe do departamento de jornalismo da empresa, Nogueira ficou revoltado com a clara manipulação de um debate que envolvia os, então, presidenciáveis da época, Lula e Collor. Na ocasião, a edição foi decisiva para a vitória de Collor na disputa eleitoral. Inconformado, o jornalista protestou pessoalmente junto a Roberto Marinho, tecendo duras críticas ao ocorrido. Diante dos fatos, Nogueira foi aposentado pela alta cúpula da Globo. A partir daí, voltou a se dedicar a sua grande paixão: o esporte.

(Abaixo: Cena do filme “Muito Além do Cidadão Kane”. BBC-1993)

Na manhã de segunda-feira, 29 de Março de 2010, Armando Nogueira faleceu. Vítima de um câncer no cérebro que o acometia desde 2007 e o afastou de suas funções. Sua herança são suas palavras. Seu exemplo foi sua história de vida. Nascido no interior esquecido do Brasil, tornou-se um dos principais personagens da história jornalística brasileira. No dia de sua morte, o “Mestre” recebeu homenagens poucas vezes vista na história do país. Por ele, o Maracanã dormiu com suas luzes acesas e sua foto foi exibida nos telões, acompanhada de suas mais celebradas frases.

Frases foi o que Armando Nogueira fez de melhor. E assim, o jornalista Renato Maurício Prado, o definiu: “Era um gênio cuja simplicidade no trato com os colegas contrastava com a sofisticação e o lirismo poético de seus textos, que o levaram a ser apelidado de ‘O Machado de Assis dos esportes’. Deveria ter sido ‘imortal’. Não foi porque talvez nunca tenho querido. Azar da Academia Brasileira de Letras”.

Encerro essa homenagem, com uma parte de sua famosa crônica: México 70. Escrita após o apito final, que consagrou o Brasil tricampeão mundial de futebol.

“México 70 – E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.

Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.

E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.”

Por Sérgio Rangel

8 Respostas to “A graça de um mestre”

  1. vovodelicia Says:

    Aêê, Sérgio Vitor!
    Belo post, uma homenagem com espaço mais do que merecido aqui no blog, assuntos relevantes sempre tem vez!

    =)

    Por Ana Elisa

  2. Luiza Says:

    Parabéns Sérgio! O texto ficou ótimo..
    Muito legal poder conhecer melhor sobre a vida de Armando Nogueira. Agora temos que nos inspirar nele na nossa carreira🙂

  3. Sérgio Says:

    Sérgio Vitor,
    Muito bom.
    Tenho certeza que é só o inicio de um belo caminho que terá pela frente !
    Abraço,
    Sérgio Rangel(pai)

  4. Bruno Roldi Says:

    Boa Sergião!
    Show de post! Armando Nogueira foi um gênio mesmo.
    Quando você for revolucionar o jornalismo esportivo capixaba, já sabe em quem se inspirar!

    Abração,

    Bruno.

  5. mariana machado Says:

    que texto BOM, cara.🙂 parabéns, mesmo.
    nunca tinha lido nada seu, mas a ju sempre me disse que você mandava bem. hihihi

  6. mariana machado Says:

    ah, tem um documentário em que o Armando Nogueira fala desse desentendimento na Globo. não lembro o nome…
    perdemos um mestre, né.

  7. juliacnogueira Says:

    : )
    adorei, amor! uma pena termos perdido o nogueira!

  8. João Jorge de Oliveira Says:

    Parbens. Lindo.

    Faço minhas as palavras de seu pai: tenho certeza que estes são os primeiros passos de uma caminhada brilhante.

    Seu fã. Seu tio Jorge.

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