Archive for março \31\UTC 2010

A hora do Tarzan

março 31, 2010

Tarzan: o rei da selva e de todas as noites.

Em uma cidade de interior, há uns bons 70 anos, o que existia de mais diferente para se fazer? “Com 10 anos, eu pulava corda e elástico… e de semanas em semanas eu reveza com minhas quatro irmãs quem ia ajudar a mamãe a limpar a porco abatido!” Essa é a D. Zely, nascida e criada no interior das minas gerais, minha vó, meu maior orgulho de todos! “Hoje em dia tem internet, né?! E tem brinquedo e computador pra ocupar o tempo… eu, na minha época, gostava mesmo é do Tarzan!”

Sem TV e nossas tecnologias, o melhor do dia se fazia no rádio – aliás, falando em tecnologias, antes de escrever esse post, expliquei assim pra minha vó o que era um blog: é um diário que a gente escreve no computador para todo mundo ler! E ela entendeu!

“Podíamos estar fazendo qualquer coisa, mas, às 18h, quando a gente ouvia o grito do Tarzan no rádio, era hora de ficar bem quietinha, imaginando todas aquelas histórias! A minha mãe também ouvia, não era só coisa de criança não, mas depois ela pedia pra gente fazer um desenho ou escrever alguns pedaços do episódio, assim a gente montava vários livros de histórias depois, uma coleção do Tarzan!” O quão genial é essa idéia?! A união de atenção, imaginação, escrita, desenho, colaboração… um tanto multifuncional ao meu ver, depois são as crianças de hoje que fazem muitas coisas ao mesmo tempo, mas isso eu achei demais!

“A Jane para mim era a menina mais bonita do mundo! Os bons modos e o vestido comprido amarelo que depois virou uma tanga mas eu não dexei de querer um! E tive até um parecido um dia, quando fui miss da cidade!” Essa história fica pra outro post! “O Tarzan eu não sabia se era bonito não, apesar do que minhas irmãs diziam! Mas ele tinha a inocência da gente! Gostava da natureza e dos animais… hoje em dia ainda existe a história do Tarzan? As crianças deviam conhecer a história dele, para aprender o que fazer com o planeta.” Tá aí a voz da sabedoria!

“O programa passava todos os dias, e sua meia de duração era suficiente para ocupar toda a noite, os sonhos e outro dia até chegar a hora do novo capítulo.” Simples assim.

“Tá boa essa história para blog?” Tá uma Delícia, Vó!

Por Ana Elisa Bassi

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A graça de um mestre

março 30, 2010
Mestre
“Para entender a alma do brasileiro é preciso surpreendê-lo no instante de um gol”

Há pessoas que dizem que a graça da vida está no fato de que um dia, ela acaba. Entretanto, há aqueles que enchem nossa vida de graça e se esses fossem eternos, não haveria tédio algum em tê-los para sempre.

Para muitos, Armando Nogueira seria um desses imortais. E hoje, o “Vovó Delícia” vai fugir de sua proposta inicial, descrita no “post” anterior, para homenagear o homem, que em 83 anos de vida, cobriu, nada mais que, 15 copas ‘in loco’, criou o Jornal Nacional, escreveu dez livros e teve duas grandes paixões: O esporte e a vida. Ao partir, o “mestre”, como era carinhosamente chamado, fez órfão o jornalismo brasileiro.

A história de Armando Nogueira começa onde o Brasil quase termina, em Xapuri, cidade do Acre, no dia 14 de janeiro de 1927. Aos 17 anos, foi para o Rio de Janeiro. Mas, o jornalismo só entraria em sua vida em 1950, quando fez parte da equipe de esportes do Jornal Carioca. Lá, Armando trabalhou com os melhores jornalistas esportivos da época. Nomes como Prudente de Morais Neto, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Pompeu de Souza. Essa foi sua a escola de jornalismo e lá permaneceu por treze anos.

O ponto alto de sua carreira aconteceu 16 anos depois. Armando, já um dos pioneiros da TV brasileira, escrevia textos, na antiga TV-Rio, para os locutores Cid Moreira e Herón Domingues. Foi quando, a convite de Walter Clark, ingressou na Rede Globo, onde implantou o telejornalismo na empresa. Em 1º de setembro de 1969, entrava no ar a primeira edição do Jornal Nacional, o primeiro programa de TV exibido em rede no país. Obra prima do “mestre”.

Armando Nogueira permaneceu na Globo até 1990. Sua saída se deu, após um fatídico episódio entre ele o presidente da emissora, Roberto Marinho, tendo as eleições de 89 como pano de fundo. Há 22 anos como chefe do departamento de jornalismo da empresa, Nogueira ficou revoltado com a clara manipulação de um debate que envolvia os, então, presidenciáveis da época, Lula e Collor. Na ocasião, a edição foi decisiva para a vitória de Collor na disputa eleitoral. Inconformado, o jornalista protestou pessoalmente junto a Roberto Marinho, tecendo duras críticas ao ocorrido. Diante dos fatos, Nogueira foi aposentado pela alta cúpula da Globo. A partir daí, voltou a se dedicar a sua grande paixão: o esporte.

(Abaixo: Cena do filme “Muito Além do Cidadão Kane”. BBC-1993)

Na manhã de segunda-feira, 29 de Março de 2010, Armando Nogueira faleceu. Vítima de um câncer no cérebro que o acometia desde 2007 e o afastou de suas funções. Sua herança são suas palavras. Seu exemplo foi sua história de vida. Nascido no interior esquecido do Brasil, tornou-se um dos principais personagens da história jornalística brasileira. No dia de sua morte, o “Mestre” recebeu homenagens poucas vezes vista na história do país. Por ele, o Maracanã dormiu com suas luzes acesas e sua foto foi exibida nos telões, acompanhada de suas mais celebradas frases.

Frases foi o que Armando Nogueira fez de melhor. E assim, o jornalista Renato Maurício Prado, o definiu: “Era um gênio cuja simplicidade no trato com os colegas contrastava com a sofisticação e o lirismo poético de seus textos, que o levaram a ser apelidado de ‘O Machado de Assis dos esportes’. Deveria ter sido ‘imortal’. Não foi porque talvez nunca tenho querido. Azar da Academia Brasileira de Letras”.

Encerro essa homenagem, com uma parte de sua famosa crônica: México 70. Escrita após o apito final, que consagrou o Brasil tricampeão mundial de futebol.

“México 70 – E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.

Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.

E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.”

Por Sérgio Rangel

Delícia de Post

março 28, 2010

O “Vovó Delícia” nasceu para fazer sucesso (assim esperamos!)! Três experimentadores do jornalismo encarando o desafio de desenvolver um blog dinâmico, com atualizações interativas e inteligentes, essa é a proposta que saiu da sala de aula.

Assim, não vamos fazer logo do primeiro post algo cansativo, mas, para nós, é indispensável contar como a idéia surgiu!

Precisávamos de um tema, personagem, com histórias que pudessem ser apuradas… foram dias quebrando a cabeça. Passamos do mais abstrato e diferente ao mais comum, até que resolvemos buscar algo próximo de nossa realidade, que nos desse condições de falar, falar, falar… e descobrimos uma coisa: somos os fãs número 1 de nossos avós!

E estava escolhido! O que é melhor do que a delícia do colo de vó, da comida, dos exemplos que só o avô mais querido pode dar? A delícia de estar junto, de aproveitar todos os momentos, de espelhar o maior exemplo? A delícia de viver uma outra época com um simples lembrar?

Aliás, é uma fase de lembranças, inclusive dos comprimidos! Além de histórias do arco da velha, com todo o respeito!

É também o encerramento do ciclo daquilo que hoje conhecemos como vida – e dizemos isso sem morbidez.  É inegável que a gente os vê mais perto de ir… mas, preferimos pensar que eles, que já experimentaram de tudo, vão experimentar o novo outra vez.

Pensando em tudo isso, vamos falar do melhor que essa “melhor idade” sabe falar! E mais, vamos falar por eles, questionar, pensar e aprender, principalmente aprender, sobre a delícia de viver!